EDIÇÃO ESPECIAL: CONSTRUÇÃO E DINÂMICA DE MERCADOS AGROALIMENTARES

2022-05-09

Nos últimos 15 anos, o estudo dos mercados foi resgatado como uma das temáticas mais relevantes na área de marketing. Batizado por alguns autores como “virada para os mercados”, esse movimento se deu por meio de diversos pontos focais que consolidaram correntes teóricas que possuem especificidades importantes. Apesar de ser um movimento relativamente recente, já se nota uma consolidação desse conjunto de teorias e uma aceleração importante no número de autores envolvidos com a temática e, consequentemente, de artigos publicados. O pressuposto central é que, para compreender os mercados, faz-se necessário analisar a dinâmica de suas interações, os seus movimentos, as mudanças em sua configuração e a ascensão e declínio de estruturas, tendo como foco o papel de diversos atores.

Entre as correntes teóricas mais importantes que resgatam e atualizam o estudo de mercados, destacam-se os Estudos de Mercado Construtivistas (EMC) (vide: Araujo, Finch, & Kjellberg, 2010; Harrison, & Kjellberg, 2016), os estudos de Dinâmicas de Sistemas de Mercado (Market System Dynamics– MSD, vide: Dolbec, & Fischer, 2015; Castilhos, Dolbec, & Veresiu, 2017; Giesler, & Fischer, 2017; Jafari, Aly, & Doherty, 2022), a vertente de Market Shaping, ou Formação de Mercados (vide: Geiger, Kjellberg, & Spencer, 2012; Nenonen, Storbacka, & Windhal, 2019), e os trabalhos de macromarketing baseados na teoria dos Sistemas de Marketing (vide: Layton, 2007, 2014 e 2019; Wooliscroft, 2021).

No Brasil, os estudos de mercado começaram a gerar frutos há aproximadamente 10 anos, quando as primeiras publicações apareceram nos periódicos nacionais (vide: Medeiros, Vieira, & Nogami, 2013 e 2014). Em comum, essas correntes teóricas adotam uma perspectiva dinâmica de análise de mercados e consideram uma multiplicidade de atores como ativos e performativos na constituição de novos mercados e na promoção de mudanças ou translações em mercados já existentes. Estes atores podem ser empresas, governos, organizações do terceiro setor, consumidores de forma individual ou coletiva, profissionais de marketing, entre muitos outros. Algumas dessas perspectivas teóricas destacam, também, os atores não-humanos, ou dispositivos de mercado, como embalagens, equipamentos de exposição e transporte, softwares, sistemas de tecnologia da informação, programas de certificação, novos produtos e serviços, e diversos outros.

Entre os objetos de estudo mais presentes no campo empírico que adota essa perspectiva, destacam-se os mercados agroalimentares (vide: Thompson, & Coskuner-Balli, 2007; Dubuisson-Quellier, 2013; Henry, 2017; Nemes, & Augustyn, 2017; Dalmoro, & Fell, 2020; Argade, Laha, & Jaiswal, 2021; Le Velly, Goulet, & Vinck, 2021; Rezende, Paiva, & Leme, 2021; Souza, Leme, Guimarães, & Maciel, 2021; Thomé, Cappellesso, Alves Ramos, & Duarte., 2021). Medeats, Fornazier e Thomé (2020) destacam que a alimentação influenciou e foi influenciada, ao longo do tempo, por arranjos sociotécnicos específicos que moldaram sistemas produtivos e consolidaram mercados. Os mercados agroalimentares possuem uma dinâmica complexa, que envolve entidades sociais, naturais e materiais, as quais formam um coletivo híbrido, capaz de agenciar contextos produtivos, e que possui grande relevância econômica, social e ambiental.

Novos mercados agroalimentares são moldados e construídos a partir de diversas inovações de mercado: tecnologias de produção e logística, agricultura de precisão, agricultura digital, mercados éticos e sustentáveis, regulações e autorregulações de mercado, mercados certificados e a garantia de qualidade, circuitos curtos de comercialização, autenticidade e resgate de tradições em mercados, desenvolvimento de novos produtos, dinâmicas no mercado internacional, entre diversas outras possibilidades.

Nesse sentido, a presente chamada de artigos convida contribuições inéditas nos seguintes temas, tendo obrigatoriamente como objeto de estudo os mercados agroalimentares:

  • Inovações em mercados;
  • Performatividade em mercados;
  • Mecanismos de valoração em mercados;
  • Sistemas de marketing / sistemas agregados de marketing;
  • Práticas e arranjos na construção de novos mercados;
  • O papel dos consumidores nas dinâmicas de mercados;
  • O papel das instituições nos mercados;
  • Mercados contestados e mercados preocupantes (concerned markets);
  • Dispositivos de mercado.

 

O prazo de submissões vai de 15/05/2022 a 15/08/2022.

Em parceria com o tema “Construção e Dinâmicas de Mercado”, da divisão de Marketing do Encontro Nacional de Pesquisa em Pós-Graduação em Administração (EnANPAD), até 05 artigos selecionados para publicação na edição de 2022 do evento serão convidados para compor essa edição especial.

Serão aceitos artigos redigidos em português ou inglês, os quais deverão ser submetidos à seção denominada “Edição Especial – Construção e Dinâmica de Mercados Agroalimentares”. As normas para submissão de trabalhos à OR&A estão disponíveis em: http://www.revista.dae.ufla.br/index.php/ora/normas-editoriais-e-orientacao-submissao.

 

Editores convidados:

Prof. João Felipe Rammelt Sauerbronn – Unigranrio

Prof. Daniel Carvalho de Rezende – UFLA

Prof.ª Caroline Mendonça Nogueira Paiva - Fagammon

 

Referências

Araujo, L., Finch, J., & Kjellberg, H. (eds.). (2010). Reconnecting Marketing to Markets. Oxford University Press. doi: https://doi.org/10.1093/acprof:oso/9780199578061.001.0001

Argade, A., Laha, A. K., & Jaiswal, A. K. (2021). Connecting smallholders’ marketplace decisions to agricultural market reform policy in India – an empirical exploration. Journal of Macromarketing, 41(3), 471-483. doi: https://doi.org/10.1177%2F0276146721997885

Castilhos, R. B., Dolbec, P. Y., & Veresiu, E. (2017). Introducing a spatial perspective to analyze market dynamics. Marketing Theory, 17(1), 9-29. doi: https://doi.org/10.1177%2F1470593116657915

Dalmoro, M., & Fell, G. (2020). Dimensões artesanal e massificada na construção do mercado cervejeiro. Revista de Administração de Empresas, 60(1), 47-58. doi: https://doi.org/10.1590/S0034-759020200106

Dolbec, P. Y., & Fischer, E. (2015). Refashioning the field? Connected consumers and institutional dynamics in markets. Journal of Consumer Research, 41(6), 1447-1468. doi: https://doi.org/10.1086/680671

Dubuisson-Kellier, S. (2013). A market mediation strategy: How social movements seek to change firms’ practices by promoting new principle of product valuation. Organization Studies, 34(5-6), 683-703. doi: https://doi.org/10.1177%2F0170840613479227

Geiger, S., Kjellberg, H., & Spencer, R. (2012). Shaping exchanges, building markets. Consumption, Markets & Culture, 15(2), 133-147. doi: https://doi.org/10.1080/10253866.2012.654955

Giesler, M., & Fischer, E. (2017). Market system dynamics. Marketing Theory, 17(1), 3-8. doi: https://doi.org/10.1177%2F1470593116657908

Harrison, D., & Kjellberg, H. (2016). How users shape markets. Marketing Theory, 16(4), 445-468. doi: https://doi.org/10.1177%2F1470593116652004

Henry, M. (2017). Meat, metrics and market devices: commensuration infrastructures and the assemblage of the “schedule” in the New Zealand´s red meat sector. Journal of Rural Studies, 52, 100-109. doi: https://doi.org/10.1016/j.jrurstud.2017.03.001

Jafari, A., Aly, M., & Doherty, A. M. (2022). An analytical, review of market system dynamics in consumer culture theory research: insights from the sociology of markets. Journal of Business Research, 139, 1261-1274. doi: https://doi.org/10.1016/j.jbusres.2021.10.040

Layton, R. (2019). Marketing systems – looking backward, sizing up and thinking ahead. Journal of Macromarketing, 39(2), 208-224. doi: https://doi.org/10.1177%2F0276146718823897

Layton, R. A. (2007). Marketing systems – a core micromarketing concept. Journal of Macromarketing, 27(3), 227-242. doi: https://doi.org/10.1177%2F0276146707302836

Layton, R. A. (2014). Formation, growth, and adaptive change in marketing systems. Journal of Macromarketing, 35(3), 302-319. doi: https://doi.org/10.1177%2F0276146714550314

Le Velly, R., Goulet, F., & Vinck, D. (2021). Allowing for detachment processes in market innovation: the case of short food supply chains. Consumption, Markets & Culture, 24(4), 313-328. doi: https://doi.org/10.1080/10253866.2020.1807342

Medaets, J. P. P., Fornazier, A., & Thomé, K. M. (2020). Transition to sustainability in agrifood systems: Insights from Brazilian trajectories. Journal of Rural Studies, 76, 1-11. doi: https://doi.org/10.1016/j.jrurstud.2020.03.004

Medeiros, J., Vieira, F. G. D., & Nogami, V. K. C. (2013). Práticas de mercado e inovação: dimensões esquecidas. RAI: Revista de Administração e Inovação, 10(2), 238-261. doi: https://doi.org/10.5773/rai.v10i2.942

Medeiros, J., Vieira, F. G. D., & Nogami, V. K. C. (2014). A construção do mercado editorial eletrônico no Brasil por meio de práticas de marketing. Revista de Administração Mackenzie, 15(1), 152-173. doi: https://doi.org/10.1590/S1678-69712014000100007

Nemes, G., & Augustyn, A. M. (2017). Towards inclusive innovation in the European context – the innovation capacity of alternative networks for sustainable agriculture. Innovation and Development, 7(1), 133–152. doi: https://doi.org/10.1080/2157930X.2017.1281221

Nenonen, S., Storbacka, K., & Windahl, C. (2019). Capabilities for market- shaping: triggering and facilitating increased value creation. Journal of The Academy of Marketing Science, 47(4), 617-639. doi: https://doi.org/10.1007/s11747-019-00643-z 

Rezende, D. C., Paiva, C. M. N., & Leme, P. H. M. V. (2021). Community Supported Agriculture (CSA) as an Alternative Market System: An Appreciation-Based Activist Order of Worth. Revista Interdisciplinar de Marketing, 11(2), 182-195. doi: https://doi.org/10.4025/rimar.v11i2.56517

Souza, C. E. C., Leme, P. H. M. V., Guimarães, E. R., & Maciel, G. N. (2021). Social-environmental certification in coffee production: the making of a sustainable coffee market. Revista de Gestão Social e Ambiental, 15, e02786-e02786. doi: https://doi.org/10.24857/rgsa.v15.2786

Thomé, K. M., Cappellesso, G., Alves Ramos, E. L., & Duarte, S. C. de L. (2021). Food Supply Chains and Short Food Supply Chains: Coexistence Conceptual Framework. Journal of Cleaner Production, 278(1), 123207. doi: https://doi.org/10.1016/j.jclepro.2020.123207

Thompson, C. J., & Coskuner-Balli, G. (2007). Enchanting ethical consumerism: The case of community supported agriculture. Journal of Consumer Culture,7(3), 275–303. doi: https://doi.org/10.1177%2F1469540507081631

Wooliscroft, B. (2021). Macromarketing and the systems imperative. Journal of Macromarketing, 41(1), 116-123. doi: https://doi.org/10.1177%2F0276146720980521